Interlúdios
O idioma materno, a conversa infinita e um pato amado -- pasmem, senhoras e senhores -- é assado
1.
Amo ler livros sobre práticas de escrita e sobre relação com os livros, sejam textos mais teóricos e ensaísticos, ou mais pessoais, íntimos. E, entre essas duas “categorias” – para definir de algum modo –, há uma miríade de produções que tratam daqueles temas sob a superfície de relatos cotidianos aparentemente simples, mas inspiradores. Li, no fim do ano passado O idioma materno (Relicário; trad. Mariana Sanchez), do mexicano de origem mezzo egípcia/ mezzo italiana Fabio Morábito [busco, intrigada, os rastros dessa identidade tão peculiar na própria matéria escrita do autor]. O grande charme da obra é reunir um conjunto de ensaios cronísticos inteligentes e afetuosos sustentados na forma breve – cada texto não ultrapassa página e meia. Esse exercício de contenção/concisão é estimulante; na coletânea, há um texto explicitamente a respeito, intitulado “Samsonite”. A impressão é que o escritor escreve seguindo um certo limite – de caracteres ou de palavras ou de frases etc., quem sabe? Os temas pelos quais passeia são cativantes, mas arrisco afirmar que as reflexões ganham força em razão da adesão tácita à opção estética da extensão calculada. Por isso, o interesse de O idioma materno não está apenas naquilo que Morábito discute, mas também nas escolhas lapidares que ele faz em cada texto.
Agora leio Um pato amado é assado – ensaios práticos sobre práticas de escrita (WMF Martins Fontes; trad. Camila von Holdefer), uma deliciosíssima seleção de ensaios da mestra estadunidense Lydia Davis, escritora e tradutora. O livro sai pela coleção chamada Errar Melhor, com coordenação de Joca Reiners Terron. Lydia é uma autora que se aventura deliberada e alegremente pelas formas breves, como podemos acompanhar nos livros de contos Tempos de perturbação e Nem vem, ambos publicados pela Companhia das Letras e traduzidos por Branca Vianna. Em Um pato amado é assado, comenta suas fontes de inspiração e, sobretudo, suas escolhas estéticas, com uma consciência afiada sobre o manejo do léxico, do ritmo, da forma e do efeito. Traz muitos exemplos, e seus exercícios de concisão – corta daqui, lima dali –, todos conscientes e justificados, são não só instrutivos, mas também inspiradores tanto para quem escreve quanto para quem lê. O livro deixa evidente como as escolhas formais são parte fundamental (e inegável) do processo criativo e do labor textual.
O autor ou a autora que subestima a forma provavelmente opta consciente ou inconscientemente por manter a linguagem em seu nível básico ou banal (o do senso comum) – seria um texto “sem estilo”, sem qualquer diferença em relação aos textos que circulam corriqueiramente por aí, inclusive em âmbito lexical. Notem que não me refiro a enredo ou à estrutura narrativa nem à temática, mas à linguagem e às demais opções estéticas. Também não me refiro ao uso de marcas de oralidade, pois isso já seria empreender uma opção formal deliberada. Igualmente não discuto se o desdém formal configura ou desconfigura um texto como literário, pois não é de minha alçada. Apenas registro que, tanto no trabalho de Morábito quanto no de Lydia, a escolha das formas breves (a concisão/contenção) produz efeitos e revela algo que se mistura à narrativa em si, sendo parte daquilo que se conta.
2.
Michal é um homem polonês na faixa dos 60 ou 70 anos, imagino. Talvez eu o tenha conhecido pessoalmente em 2012, quando participei de uma conferência pela paz na Polônia com gente de todo o mundo. Fato é que não me lembro dele exatamente. Lembro-me de outros poloneses, aqueles e aquelas com quem mais convivi, aqueles e aquelas que me hospedaram nas imediações de Cracóvia e, depois, de Varsóvia. No mais, vagas recordações. Todos os anos, há mais de uma década, Michal envia e-mails de saudações na Páscoa e no Natal. Ano passado, retribuí os respectivos votos natalinos, após anos em silêncio distraído. Finalizei a mensagem com “abraços daqui do Brasil”. Passados uns dias, Michal me respondeu, surpreso: “Que novidade saber que está no Brasil! Afinal, na época em que nos conhecemos, você vivia na Argentina!” Fato é que Michal tampouco se lembra de mim exatamente.
3.
Tenho gostado de ler livros que me empurram para a frente (ou para cima, ou para o abismo, ou para algum ponto no qual eu não me encontre no exato momento da leitura). Sendo mais taxativa: que me tirem do lugar. São tempos pantanosos, nos quais qualquer movimentação parece morosa e difícil, arrastada. Achei que era só eu que estava assim, mas outras mulheres na mesma faixa etária e os brasileiros e brasileiras mais atentos parecem também estar atolados no pântano. Revolução hormonal, lucidez política, capitalismo apocalíptico, mangue.
Outra leitura inspiradora dos últimos tempos – fim de janeiro, não tão longe assim – foi Conversa infinita (Quina; trad. Julián Fuks), do psicanalista argentino Mariano Horenstein. O autor realizou uma série de entrevistas/conversas presenciais com personalidades do mundo da cultura que tivessem [tido] alguma relação com a psicanálise ou interesse declarado no tema. Foi, portanto, ao encontro de cada entrevistado ou entrevistada, estabelecendo um diálogo cara a cara. Além disso, transitou por quatro idiomas: espanhol, inglês, francês e português, permitindo-se perder-se nas fissuras e nos indizíveis da tradução. O resultado desse ambicioso projeto é bem-sucedido e uma delícia de ler.
Fui saboreando aos poucos. Não segui a ordem disposta no livro. Escolhi ler segundo a curiosidade pela figura em questão. Comecei com a conversa com Paul Auster e Siri Hustvedt. Houve entrevistas que me engajaram de maneira eminentemente intelectual ou anedótica. Outras, inadvertidamente, acabaram por me arrebatar, trazendo reflexões precisas no momento certo. A troca de mensagens do autor com Coetzee. As respostas interessantíssimas do escritor espanhol Javier Cercas. A contundência da perspectiva do fotógrafo guatemalteco Luiz González Palma. A sensibilidade do filósofo francês Didi-Huberman (de quem eu já era fã). Entre as mulheres, destaco a colorida entrevista com a psicanalista búlgara-francesa Julia Kristeva.
E, sobretudo, as conversas com os dois uruguaios. Enrolei e enrolei para ler a entrevista com o cantor e compositor Jorge Drexler; deixei-a por último, inclusive, sem nenhuma razão específica. E não é que me comoveu de um jeito inesperado? Drexler se mostrou tão presente, vulnerável e terno. Algo ali iluminou algo aqui. Fiquei até com saudade de voltar a escutar suas músicas, que integraram um momento específico de minha vida.
O outro papo inspirador foi com o performer e dramaturgo Sergio Blanco (que já tive a oportunidade de ver em cena, assim como já assisti a montagens de obras suas por outros artistas). Blanco trabalha com a autoficção na cena teatral de modo bem consciente – e há anos, bem antes do fenômeno Édouard Louis, por exemplo. Suas respostas às indagações de Horenstein são extremamente lúcidas e servem como dispositivos para debates bastante pertinentes no campo das artes. Para conectar com o que escrevi antes sobre escolhas formais no texto, pinço uma frase: “A literatura é o lugar onde a linguagem aparece para que em seu lugar possamos nos ausentar, possamos desaparecer”.
(Essa repetição da palavra “lugar” seja na fala, seja na transcrição ou ainda na tradução me parece intrigante. É o mesmo lugar ou são lugares sobrepostos? Lugar como âmbito/espaço e lugar como posição/função?)
4.
A linguagem aparece, eu desapareço. Talvez apenas me ausente, mas por tempo indeterminado. Torno-me obscena. Fora de cena. Não posso ser encenada. Sancho é incapaz de produzir poesia, ele disse, Sancho vê o que é e, para ele, isso é o que deve ser. Sancho não é obsceno. Já eu, como Quixote, desamarro tudo. Eu digo. Pulo cerca, como Cercas. Escrevo um romance para proteger as perguntas das respostas. E, se ofereço respostas, nunca são claras, unívocas, taxativas, são sempre ambíguas, contraditórias, cambiantes, irônicas. Comecei a errar, errando. Comecei a despertencer. Antes, havia olhado para Górgona: fama, fracasso, não importa: paralisei. Mas então apurei a acústica, segui o vento. O errante erra trajetos, acertando-os. E, se você observar bem [a imagem sus-sur-ra], estou ali, fora de cena, como uma nota de rodapé no século 22.



